Taste é o novo fosso. Não é onde eu apostaria.
Contraponto à tese mais repetida do ano: separar o taste durável, julgamento de sistemas, do taste efêmero que o próximo modelo absorve.

“Taste é o novo fosso” virou a frase mais repetida de 2026. Aparece em thread de fundador, em bio de perfil, em slide de all-hands. E eu entendo o apelo: quando o modelo escreve o código, sobra a pergunta de qual código pedir. Só que frase de efeito não vira estratégia por repetição. Vira clichê.
Vou separar o que eu apostaria do que não apostaria. É o que faço com qualquer tese que chega já com aplauso embutido: desconto o aplauso e olho o que sobra.
Taste sem métrica é vaidade com vocabulário novo
O problema não é a palavra. É o que ela passou a autorizar. “Taste” virou a desculpa perfeita para não medir nada. Você não precisa mostrar retenção, não precisa mostrar margem, não precisa defender a decisão. Basta dizer que tem bom gosto, e bom gosto, por definição conveniente, não se explica.
Um fosso que você não consegue articular não é fosso. É vaidade.
Se a sua vantagem só existe enquanto ninguém pede para você descrevê-la, ela já acabou.
Fosso de verdade tem uma propriedade incômoda: dá para apontar. Custo de troca, efeito de rede, dado proprietário, distribuição. Você mede, o concorrente mede, e mesmo assim ele não alcança. “Bom gosto” não tem essa propriedade. Ninguém consegue dizer onde começa e onde para.
O taste que o próximo modelo engole
Vale distinguir dois tipos de taste que a frase junta de propósito.
O primeiro é estético. Saber que esse gradiente está brega, que essa copy está inflada, que esse fluxo tem um passo a mais. É real, é vendável hoje, e é exatamente o que a próxima geração de modelo absorve. Gosto estético é padrão sobre um corpus enorme de exemplos, e aprender padrão em corpus é a única coisa que esses sistemas fazem sem esforço. Apostar carreira nisso é apostar contra a curva.
O segundo é julgamento de trade-off de sistemas. Saber que consistência forte aqui vai custar latência ali. Que esse acoplamento compra velocidade hoje e cobra reescrita no ano que vem. Que esse índice resolve a query e detona a escrita. Isso não é preferência, é leitura de consequência sob restrição, e a restrição muda com o negócio, com a escala, com o time.
Na prática:
- Taste estético responde “qual fica melhor?”.
- Julgamento de sistemas responde “melhor sob qual restrição, e o que quebra quando a restrição mudar?”.
A primeira pergunta o modelo já responde bem. A segunda exige um contexto que não está em corpus nenhum: o seu.
O que isso muda em quem eu contrato
Parei de contratar pela pergunta “essa pessoa tem bom gosto?”. Passei a contratar pela pergunta “essa pessoa defende a escolha quando eu aperto?”.
São coisas diferentes. A primeira produz alguém que aponta o feio. A segunda produz alguém que, questionado, mostra o trade-off, nomeia o que abriu mão e o que ganhou, e troca de posição quando a restrição muda. A primeira o modelo replica. A segunda é o fosso.
Se o único argumento de um sênior é que ele “sente” a resposta certa, ele acabou de descrever uma habilidade que estou terceirizando por alguns dólares por milhão de tokens.
Taste não é o novo fosso. É a nova maneira de não dizer qual é o seu.