Arquitetura de software na era dos agentes
Modelos de linguagem viraram componentes de sistema. Isso muda contratos, testes e limites de confiança, mas não dispensa arquitetura. Muda o que ela precisa proteger.

Há uma tentação em tratar um modelo de linguagem como se fosse mais uma chamada de função. Você manda um texto, recebe um texto. Na prática, é o componente menos determinístico que você já colocou num diagrama, e isso reordena as prioridades da arquitetura.
O modelo é uma fronteira de confiança, não uma biblioteca
Uma biblioteca tem contrato estável: mesma entrada, mesma saída. Um modelo tem uma distribuição de saídas. Isso significa que a fronteira ao redor dele precisa fazer o que toda fronteira de baixa confiança faz:
- validar a saída antes de deixá-la entrar no núcleo do sistema;
- isolar efeitos colaterais: um agente que pode agir precisa agir dentro de um escopo revogável;
- degradar com elegância quando a resposta não vem, vem errada, ou vem cara demais.
Na prática, a fronteira parece com isto. A saída do modelo é validada antes de tocar o núcleo:
const result = OutputSchema.safeParse(await model.generate(prompt));
if (!result.success) return fallback(result.error);
return commit(result.data);

Nada disso é novo. É a mesma disciplina que aplicamos a integrações externas instáveis. O que muda é que agora essa fronteira está no meio da lógica de produto, não na borda.
Testes deixam de ser binários
Você não testa mais “a função retorna 4”. Você testa faixas de comportamento aceitável, com avaliações, não com asserções. O pipeline de qualidade passa a incluir datasets de avaliação e métricas de regressão semântica, ao lado dos testes unitários de sempre.
A pergunta muda de “está correto?” para “está correto com que frequência, e o que acontece quando não está?”.
O que não muda
Acoplamento continua sendo dívida. Fronteiras bem desenhadas continuam sendo o que permite trocar o modelo de amanhã sem reescrever o sistema. Observabilidade continua inegociável, só que agora você observa também custo por decisão e qualidade da resposta, não só latência e erro.
A IA não substitui a arquitetura. Ela aumenta o preço de não ter uma.