Contratamos sênior e demitimos o futuro

Cortar júnior é racional no trimestre e suicida no horizonte de escassez de sênior que isso cria: a decisão desconfortável de todo CTO.

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O board me fez a pergunta que eu vinha adiando. Se a IA gera o código do júnior, por que ainda pago alguém para escrever esse código? A planilha estava aberta, a resposta parecia óbvia, e por um segundo eu quase concordei.

Concordar teria sido racional. É o tipo de decisão que fecha bonito no trimestre e explode três anos depois, quando ninguém mais lembra quem apertou o botão.

O que o júnior produz nunca foi código

A confusão começa em achar que a vaga de júnior existe para gerar linhas. Nunca existiu. O código do júnior sempre foi caro, lento e cheio de retrabalho. Pagávamos por outra coisa: por uma pessoa atravessando a distância entre saber sintaxe e ter julgamento.

A IA fechou a parte fácil dessa distância. Ela gera o código que o júnior geraria, mais rápido e sem reclamar. O que ela não gera é a experiência de ter escrito aquele código, colocado em produção e visto quebrar de um jeito que nenhum tutorial previu.

Julgamento se forma no prejuízo

Ninguém aprende a pesar trade-off lendo sobre trade-off. Aprende propondo a solução errada, defendendo com convicção e assistindo ela falhar sob carga real. O sênior que você admira é um júnior que sobreviveu a uma sequência específica de erros e prestou atenção em cada um.

Tire o júnior da equação e você não acelera essa formação. Você cancela. A máquina escreve um código que ninguém no time entende de verdade, porque ninguém passou pela dor de escrever aquilo errado antes. Você troca uma pessoa que estava virando sênior por uma ferramenta que nunca vai virar.

Automatizamos a produção de código e, sem perceber, automatizamos também o fim da esteira que formava quem revisa esse código.

A economia é o motor, a IA é a desculpa

A queda na contratação de júnior começou antes de a IA virar pauta de reunião. Juros altos, capital caro, pressão por margem: cortar a posição mais barata e mais lenta de dar retorno é o movimento óbvio de qualquer CFO. A IA chegou depois e deu à decisão uma narrativa nobre. Deixou de ser “estamos economizando” e virou “estamos modernizando”.

O problema é que júnior não é uma despesa que se liga e desliga. É um pipeline com anos de latência. A conta do júnior que você não contratou hoje não chega hoje. Chega em 2029, quando precisar de um sênior, olhar o mercado e descobrir que quase ninguém formou a safra que agora falta. O preço do sênior, nessa hora, vai ser o preço de todo mundo ter feito a mesma coisa racional ao mesmo tempo.

Se metade das empresas parar de formar por alguns anos, a escassez de sênior no fim da década não aparece por acidente. Ela é uma decisão coletiva, tomada um trimestre de cada vez, por gente que nunca se sentou na mesma sala.

O que eu decidi

Mantive a vaga. Mudei o que ela significa. O júnior que contrato agora não compete com a IA na produção de código. Ele aprende a dirigir a máquina e a desconfiar dela: revisa o que ela cospe, entende por que aquilo funciona ou não, e vai acumulando o único ativo que a IA não gera sozinha, que é cicatriz.

Dói no trimestre. Anotei o custo, olhei para ele e paguei consciente. A alternativa é terceirizar a formação dos meus futuros sêniores para o mercado e torcer para que o concorrente tenha sido menos racional que eu.

Sênior não se compra pronto. Se forma, ou se importa caro. Quem parar de formar agora já escolheu importar.